Saúde Para Todos

Em 17/03/2012, publicado em: Bem Viver, Blog Pharmactiva por

Insônia: dormindo com o inimigo.

“Estudos mostram que mais de 70% das pessoas deprimidas e 25% das excessivamente ansiosas também sofrem de insônia”.

Alessandro Loiola

Um sujeito vai ao médico para se queixar de um grave problema de insônia. – Doutor, toda vez que me deito na cama, acho que tem alguma coisa me ameaçando embaixo. Aí me deito embaixo da cama e acho que a coisa está em cima. Pra baixo, pra cima, pra baixo, pra cima, a noite inteira. Não consigo dormir… será que isso tem cura? O médico rascunha uma meia dúzia de 30 remédios diferentes e sentencia: – Tem, tem cura, mas vai demorar uns dois anos e serão necessárias sessões semanais de R$ 150 cada uma, aqui no consultório. Sem todo aquele dinheiro e ainda mais deprimido do que quando chegou para a consulta, o sujeito desaparece. O médico o reencontra por acaso na rua, vários meses depois. – Rapaz, olha você aí! Não voltou mais… – Ah, doutor, terminei encontrando a solução definitiva para meu problema num bar, por apenas R$ 10. – Como é que é !? – pergunta incrédulo o médico. – Por R$ 10, o sujeito foi lá em casa e cortou os pés da cama… Não recomendo que você vá procurar a cura de todos os seus males em cada barzinho da sua cidade, até porque corre o risco de não existirem barzinhos suficientes, mas também não recomendo que confie o sucesso de sua existência a um punhado de comprimidos escondidos em caixinhas coloridas de papelão. A insônia é um bom exemplo disso. A insônia não é uma doença, mas é extremamente comum. Na maioria dos casos, sinaliza outros distúrbios, como alergias, artrite, doenças cardíacas, hipertensão arterial, asma, doenças reumáticas, Parkinson, Alzheimer e hipertireoidismo. Alterações psicológicas também são uma causa importante: estudos mostram que mais de 70% das pessoas deprimidas e 25% das excessivamente ansiosas também sofrem de insônia. Cerca de 5% das pessoas com insônia apresentam um tipo especial chamado insônia psicofisiológica. Essa forma consiste em um ciclo vicioso, em que uma primeira noite maldormida produz irritabilidade e ansiedade durante o dia, afetando o padrão de sono da noite seguinte, reiniciando então todo o processo. O consumo exagerado de álcool e cafeína responde por 10% a 15% dos casos de insônia psicofisiológica. Independentemente da causa, a insônia pode resultar em dificuldade de concentração, dores de cabeça persistentes, problemas da memória e dificuldade em resolver problemas do dia-a-dia. Estudos recentes mostram que o sono profundo é importante para o aprendizado de habilidades repetitivas, que exigem boa percepção visual, como, por exemplo, digitar, dirigir, manusear máquinas pesadas etc. Diminuir uma ou duas horas de sono por noite já é o suficiente para comprometer sua performance no trabalho. O tratamento da insônia deve ser iniciado pela pesquisa e correção das causas diretas: normalizar a pressão arterial, tratar o hipertireoidismo, a crise de asma, as dores artríticas, a depressão etc. Se você não sofre de nenhuma doença grave e mesmo assim anda se queixando de insônia, o problema provavelmente está em seus maus hábitos na hora de dormir. Nesse caso, o primeiro passo é procurar a farmácia mais próxima e comprar um grande e suculento frasco de vergonha. Tome-o quase todo e ofereça o restinho àquelas visitas que teimam em ficar até mais tarde no domingo. A qualidade do sono depende de atitudes simples, como criar no quarto um ambiente escuro, silencioso e relaxante. Um banho morno seguido de um lanche leve (uma ou duas porções de fruta em vez de 80 quilos de antílope assado com pimenta) ou tomar chás com ervas relaxantes (melissa, valeriana, bupleuro, camomila, erva cidreira) são medidas úteis para chamar o sono. Nos casos mais severos e crônicos, pode ser necessário o uso de sedativos. Entretanto, o organismo ganha resistência com o tempo, solicitando doses cada vez maiores do remédio para obter os mesmos efeitos, aumentando a possibilidade de reações colaterais perigosas. Como essas drogas não curam o problema, a insônia tende a retornar tão logo os medicamentos sejam suspensos. No fim das contas, o segredo para aquele ronco cerrado não está em remédios mirabolantes. A verdadeira solução para a insônia – e tantos outros problemas que lhe afligem – costuma se esconder no velho lugar insuspeito de sempre: dentro da sua cabeça. Ou embaixo da cama.

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