Sucralfato tópico como estratégia inovadora e segura no manejo de feridas cutâneas em medicina veterinária.
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O sucralfato, tradicionalmente utilizado como agente gastroprotetor em úlceras gastroduodenais, vem demonstrando um papel inovador no tratamento de feridas cutâneas quando aplicado por via tópica.
Evidências experimentais apontam para efeitos relevantes sobre a angiogênese, organização do colágeno e ativação fibroblástica, associados à preservação de fatores de crescimento e redução do estresse oxidativo, um recurso seguro e economicamente acessível na cicatrização de lesões tegumentares.
O problema
A pele constitui a maior barreira protetora do organismo animal, desempenhando funções físicas, químicas e imunológicas indispensáveis à homeostase. Lesões cutâneas interrompem essa defesa, favorecendo infecções, perda de fluidos e comprometimento funcional. Na prática veterinária, os distúrbios dermatológicos representam parcela expressiva da casuística, com impacto clínico, econômico e sobre o bem-estar animal.
O processo de cicatrização envolve três fases sobrepostas: inflamatória, proliferativa e de remodelação. Neutrófilos, macrófagos e linfócitos coordenam a resposta inicial, liberando citocinas e fatores de crescimento que estimulam fibroblastos, queratinócitos e células endoteliais. A deposição de colágeno, a formação de tecido de granulação e a reepitelização dependem da adequada regulação desses mediadores. Qualquer atraso ou desequilíbrio, comum em espécies como equinos e felinos, prolonga a recuperação e aumenta a frequência de complicações.
O manejo de feridas cutâneas em animais exige protocolos que integrem higienização, debridamento e uso criterioso de agentes tópicos. Entre os fármacos clássicos, destacam-se a sulfadiazina de prata, o mel medicinal e formulações com nanopartículas, todos com eficácia variável e, em alguns casos, custo elevado ou limitações de segurança. Isso estimula a busca por alternativas acessíveis e com mecanismos de ação bem fundamentados.

O sucralfato, tradicionalmente indicado em úlceras gastroduodenais, forma barreira protetora e estimula a secreção de muco. Em uso tópico, preserva fatores de crescimento, promove angiogênese, ativa fibroblastos e reduz o estresse oxidativo, resultando em cicatrização mais rápida e organizada.
Na medicina humana, ensaios clínicos e revisões sistemáticas já consolidaram o benefício do sucralfato em queimaduras, úlceras venosas, dermatite por radiação, mucosite e feridas cirúrgicas, com melhora da dor, redução da infecção e aceleração da epitelização. Em modelos experimentais com roedores e suínos, resultados semelhantes confirmam aumento da vascularização e maior deposição de colágeno.
Embora ainda faltem ensaios clínicos em cães, gatos e equinos, a plausibilidade biológica é consistente. O conjunto de evidências indica que o sucralfato tópico pode ser alternativa viável em situações de cicatrização lenta ou complicações recorrentes.

Tipo de estudo: Revisão narrativa.
Questão clínica e tipo de evidência
Questão Clínica: Avaliar se o uso tópico do sucralfato pode favorecer a cicatrização de feridas cutâneas em espécies veterinárias, considerando sua capacidade de estabilizar fatores de crescimento, estimular angiogênese, modular inflamação e exercer ação antimicrobiana local.

Tipo de Evidência: Revisão narrativa publicada em periódico indexado (Veterinary Sciences, 2025), baseada em busca sistemática nas bases PubMed e Google Scholar, sem restrição de data. Foram incluídos: • Ensaios clínicos em humanos (queimaduras, úlceras venosas, úlceras por pressão, mucosite, dermatite induzida por radiação, feridas pós-hemorroidectomia e pós-tonsilectomia); • Estudos experimentais em roedores e suínos (modelos de queimaduras, úlceras diabéticas, feridas excisionais, feridas por radiofrequência), com uso de formulações de creme a 10%, combinações com PRP e sistemas inovadores de microneedles; • Estudos in vitro (avaliação antimicrobiana frente a patógenos cutâneos comuns em cães e gatos, como Staphylococcus pseudointermedius, E. coli e Enterococcus faecalis).
Referência: Vet Sci. 2025 Aug 13;12(8):756. doi: 10.3390/vetsci12080756.
Resultados
1. Evidências em Medicina Humana:
Diversos ensaios clínicos e revisões sistemáticas demonstraram eficácia do sucralfato tópico em condições cutâneas e mucocutâneas. Entre os achados:
Queimaduras: aceleração da epitelização, redução de infecção e dor, com resultados superiores ou comparáveis à sulfadiazina de prata;
Úlceras crônicas (venosas, diabéticas e por pressão): maior formação de tecido de granulação, estimulação da angiogênese e fechamento mais rápido das lesões;
Dermatite e mucosite por radiação: redução significativa da intensidade dos sintomas e menor tempo de recuperação;
Feridas cirúrgicas (hemorroidectomia, tonsilectomia, cirurgias anorretais): menor necessidade de analgésicos e cicatrização mais rápida;
Dermatologia pediátrica: eficácia no tratamento de dermatite irritativa de fraldas, com melhora clínica e segurança confirmada.
2. Evidências Experimentais em Animais de Laboratório:
Os estudos concentram-se em roedores e suínos, utilizando formulações tópicas de sucralfato (creme a 10%, combinações com PRP e microneedles). Os principais achados incluem:
Aceleração da cicatrização em feridas de espessura total, com aumento da neovascularização, organização do colágeno e reepitelização;
Maior expressão de fatores de crescimento, como EGF, e incremento da atividade fibroblástica;
Redução de estresse oxidativo e estímulo à resposta inflamatória inicial, seguida de fase proliferativa mais eficiente;
Superioridade frente à sulfadiazina de prata em modelos de queimadura, com cicatrização completa em menor tempo;
Potencial efeito antimicrobiano frente a patógenos relevantes, como S.pseudointermedius, Escherichia coli e Enterococcus faecalis.
3. Perspectiva Veterinária
Apesar da ausência de ensaios clínicos em cães, gatos e equinos, os resultados pré-clínicos sustentam a plausibilidade translacional. A evidência sugere que o sucralfato tópico pode ser particularmente útil em espécies com desafios específicos de cicatrização:
Equinos: propensão ao desenvolvimento de tecido de granulação exuberante;
Felinos: cicatrização lenta, menor vascularização e fragilidade do tecido reparado;
Cães: potencial benefício no manejo de infecções superficiais por patógenos comuns.
Síntese dos resultados da revisão sobre o uso tópico do sucralfato
Contexto | Principais condições avaliadas | Achados relevantes |
Medicina Humana | Queimaduras; úlceras venosas, diabéticas e por pressão; mucosite e dermatite por radiação; feridas pós-operatórias; dermatite de fraldas. | Aceleração da epitelização; maior formação de tecido de granulação; incremento da angiogênese; redução da dor e da infecção; menor necessidade de analgésicos; recuperação mais rápida em diferentes cenários clínicos. |
Modelos Animais (roedores e suínos) | Feridas excisionais de espessura total; queimaduras térmicas e por radiofrequência; úlceras diabéticas. | Aumento da neovascularização e da atividade fibroblástica; maior deposição e organização do colágeno; elevação da expressão de EGF; cicatrização mais rápida e completa; desempenho superior à sulfadiazina de prata em queimaduras; ação antimicrobiana frente a Staphylococcus pseudointermedius, E. coli e Enterococcus faecalis. |
Perspectiva Veterinária | Cães, gatos e equinos (evidência indireta). | Potencial translacional para espécies com dificuldades específicas de cicatrização: prevenção de tecido de granulação exuberante em equinos; melhora da vascularização e da reepitelização em felinos; benefício adicional no controle de infecções superficiais em cães. |
O sucralfato tópico apresenta mecanismos farmacológicos consistentes: preservação de fatores de crescimento, estímulo à angiogênese, ativação de fibroblastos, modulação inflamatória e ação antimicrobiana, que resultam em aceleração da cicatrização cutânea. A evidência clínica em humanos é robusta e a plausibilidade biológica e o perfil de segurança sustentam seu potencial como alternativa promissora, segura e de baixo custo para o manejo de feridas em cães, gatos e equinos.
Característica | Detalhamento |
Composição | Sal básico de sacarose octassulfato associado ao hidróxido de alumínio. |
Mecanismo de ação clássico | Formação de barreira protetora em superfícies lesadas; ligação a proteínas e mucopolissacarídeos; estímulo à produção de muco. |
Mecanismo em feridas cutâneas | Preservação de fatores de crescimento (EGF, FGF); estímulo à angiogênese; aumento da atividade fibroblástica; promoção da colagenogênese; redução do estresse oxidativo; modulação da inflamação. |
Propriedades adicionais | Ação analgésica por recobrimento de terminações nervosas expostas; efeito antimicrobiano contra patógenos cutâneos comuns (Staphylococcus pseudointermedius, E. coli, Enterococcus faecalis). |
Formas de uso | Cremes tópicos a 10%; associação com PRP; loções e géis em diferentes concentrações. |
Discussão e Implicações Clínicas
A aplicação tópica do sucralfato demonstrou impacto consistente na aceleração da cicatrização cutânea, sustentada por evidências clínicas humanas e experimentais em modelos animais. Os efeitos de preservação de fatores de crescimento, estímulo à angiogênese e incremento da atividade fibroblástica reforçam sua plausibilidade translacional, em especial para espécies veterinárias com desafios característicos de reparação tecidual.
Principais pontos clínicos observados:
Redução do tempo de epitelização em queimaduras, úlceras crônicas e feridas cirúrgicas;
Aumento da deposição de colágeno e da formação de tecido de granulação organizado;
Efeito analgésico com menor necessidade de uso complementar de fármacos;
Superioridade frente à sulfadiazina de prata em modelos de queimaduras;
Ação antimicrobiana contra patógenos cutâneos comuns em cães e gatos.
Racional farmacológico do sucralfato:
Preservação de fatores de crescimento (EGF, FGF), prolongando sua biodisponibilidade local;
Estímulo à angiogênese e à perfusão sanguínea no leito da ferida;
Ativação de fibroblastos, promovendo colagenogênese organizada;
Modulação da inflamação, favorecendo o perfil regenerativo dos macrófagos;
Redução do estresse oxidativo e proteção do microambiente tecidual;
Recobrimento de terminações nervosas expostas, reduzindo dor;
Ação antimicrobiana complementar, com efeito sobre bactérias Gram-positivas e Gram-negativas.
Implicações práticas para a clínica veterinária:
Alternativa adjuvante em cães com feridas contaminadas ou de difícil cicatrização;
Opção promissora em felinos, que apresentam vascularização cutânea reduzida e reparação lenta;
Estratégia útil em equinos, com potencial de reduzir a formação de tecido de granulação exuberante;
Recurso economicamente acessível, aplicável em protocolos de rotina e em feridas crônicas.
Limitação crítica do estudo: A literatura específica em espécies veterinárias é restrita a modelos experimentais, sem ensaios clínicos controlados em cães, gatos e equinos, o que limita a padronização terapêutica.
O sucralfato tópico representa alternativa promissora no manejo de feridas cutâneas veterinárias. Sua base farmacológica sólida, aliada ao perfil de segurança e ao baixo custo, justifica sua consideração clínica imediata, ainda que a consolidação definitiva dependa de ensaios clínicos controlados em animais de companhia e equinos.
Literatura consultada
Accorroni L, Dini F, Pilati N, Marchegiani A, Bazzano M, Spaterna A, Laus F. Topical Use of Sucralfate in Cutaneous Wound Management: A Narrative Review with a Veterinary Perspective. Vet Sci. 2025 Aug 13;12(8):756. doi: 10.3390/vetsci12080756. PMID: 40872708; PMCID: PMC12390033.
Departamento Técnico Pharmaceutical Consultoria.
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