Eficácia e segurança da naltrexona em baixa dose no tratamento do líquen planopilaris e da alopecia frontal fibrosante.
- Pharmactiva

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Revisão sistemática recente, aceita no Journal of the American Academy of Dermatology, avaliou a utilização da naltrexona em baixas doses (LDN) nas alopecias cicatriciais do espectro LPP/FFA, compilando 6 estudos e 129 pacientes.
Observou-se melhora consistente de marcadores clínicos e sintomas e os achados sustentam a LDN como adjuvante imunomodulador potencial em protocolos combinados, aguardando confirmação por ensaios controlados.
O problema
O líquen planopilaris (LPP) e a alopecia frontal fibrosante (FFA) constituem alopecias cicatriciais primárias marcadas por inflamação linfocitária perifolicular e destruição progressiva da unidade pilossebácea. A resposta imune anormal promove fibrose irreversível e perda permanente dos fios, impactando qualidade de vida e exigindo intervenção precoce para contenção da atividade inflamatória.
O tratamento visa reduzir inflamação e preservar folículos viáveis, recorrendo a corticosteroides, antimaláricos, retinoides e imunossupressores. Contudo, os resultados são variáveis, e a tolerabilidade é limitada. A recorrência frequente e a ausência de terapias de ação imunorreguladora seletiva sustentam a busca por alternativas mais seguras e com melhor perfil de adesão.
A naltrexona, em doses baixas, apresenta ação imunomoduladora distinta da forma convencional. O bloqueio transitório dos receptores opioides promove aumento de opioides endógenos e inibição da sinalização do receptor Toll-like 4 (TLR-4), com consequente redução de citocinas pró-inflamatórias como TNF-α e IFN-γ. Essa modulação sugere benefício potencial na regulação da inflamação perifolicular típica do líquen planopilaris e da alopecia frontal fibrosante.
Até recentemente, a aplicação clínica da LDN nessas condições baseava-se em observações isoladas e séries pequenas, sem padronização metodológica. A ausência de revisão sistemática limitava o entendimento global da experiência acumulada e impedia a avaliação comparativa de eficácia e segurança.

A crescente compreensão dos mecanismos imunometabólicos envolvidos nas alopecias cicatriciais reforça a importância de agentes que atuem modulando vias inflamatórias sem provocar imunossupressão sistêmica.
A naltrexona em baixa dose desponta como uma alternativa farmacológica de baixo custo, administrada por via oral e com perfil de segurança amplamente documentado em outras condições autoimunes. A possibilidade de integração desse fármaco a protocolos combinados, associando imunomodulação sistêmica suave a terapias tópicas ou fotobiológicas, configura uma direção promissora para futuras abordagens personalizadas em dermatologia inflamatória.
Este material visa oferecer ao prescritor uma visão técnica sobre a fundamentação imunobiológica e o enquadramento metodológico da naltrexona, preparando o terreno para análise dos achados clínicos e discussão crítica de potencial como adjuvante terapêutico nas alopecias cicatriciais.

Tipo de estudo:
Revisão sistemática conduzida segundo as diretrizes PRISMA (registro CRD420251017923), com busca estruturada em MEDLINE, Embase e CENTRAL.
Esquema do Desenho e Escopo da Revisão Sistemática:

População-alvo: Pacientes adultos diagnosticados com Líquen Planopilaris, Alopecia Frontal Fibrosante ou formas clínicas sobrepostas, em acompanhamento dermatológico.

Intervenção investigada: Naltrexona em baixa dose (LDN), administrada por via oral, em uso contínuo. | Comparador: Ausência de comparador direto; os estudos incluídos apresentaram delineamento aberto, com análise intraindividual ou observacional.

Desfechos avaliados: Atividade clínica inflamatória (índices de eritema, escama e dor), sintomas subjetivos (prurido, queimação, desconforto) e perfil de segurança (eventos adversos relatados e taxa de descontinuação), com duração média de acompanhamento entre 8 e 45 semanas, conforme a população analisada em cada estudo.
Referência: J Am Acad Dermatol. 2025 Sep 3:S0190-9622(25)02712-4. doi: 10.1016/j.jaad.2025.08.076.
Resultados
1) Líquen Planopilaris (LPP)
A maior parte dos relatos observacionais descreveu redução gradual de sinais inflamatórios perifoliculares, como eritema e descamação, além de melhora progressiva de sintomas subjetivos como prurido e dor;
A resposta clínica ocorreu predominantemente após 12 semanas, mantendo-se estável até o final dos acompanhamentos, e não foram relatadas reativações significativas durante o uso contínuo da LDN.
Desfechos clínicos no Líquen Planopilaris e respectivas implicações
Desfecho avaliado | Variação observada | Implicação clínica |
LPP Activity Index | –25,6% | Indica redução da atividade inflamatória global; útil para documentar estabilização clínica e orientar redução progressiva de corticosteroides. Recomenda-se monitorar o LPP-AI de forma seriada para decisões terapêuticas. |
Prurido | –35,4% | Melhora sintomática relevante, com impacto positivo sobre o sono e adesão ao tratamento. Pode reduzir a necessidade de anti-histamínicos adjuvantes. |
Dor | –66,7% | Alívio do componente nociceptivo e neurítico do couro cabeludo, favorecendo conforto ao pentear e maior tolerância a terapias tópicas. |
Queimação | –45,5% | Sugere atenuação da neuroinflamação perifolicular; bom marcador subjetivo de resposta precoce à LDN. |
Eritema do couro cabeludo | –29,9% | Redução visível da inflamação local; útil na tricoscopia seriada como indicador de menor atividade perifolicular. |
Eritema perifolicular | –3,9% | Queda modesta, sugerindo heterogeneidade de resposta e possível necessidade de terapia combinada ou maior tempo de uso. |
Escama perifolicular | –22,6% | Melhora da queratinização do óstio e do microambiente folicular, associada a menor atrito e melhor higiene do couro cabeludo. |
Pull test | –26% | Evidência objetiva de menor shedding inflamatório, compatível com estabilização clínica sob monitorização regular. |
2) Alopecia Frontal Fibrosante (FFA) e (3) Formas mistas LPP/FFA
Observou-se melhora parcial dos sinais inflamatórios locais, incluindo redução de eritema perifolicular, descamação e desconforto cutâneo.
A evolução clínica manteve-se uniforme em diferentes faixas etárias, com adesão satisfatória e baixo índice de eventos adversos.
Nos casos com características sobrepostas de LPP e FFA, a dose adotada mostrou-se suficiente para alcançar redução global da atividade inflamatória e do desconforto sintomático, com estabilidade clínica em aproximadamente dois terços dos pacientes. A melhora foi descrita como gradual, porém consistente ao longo de 45 semanas de observação.
Desfechos clínicos na Alopecia Frontal Fibrosante (FFA) e nas formas mistas LPP/FFA
Desfecho avaliado | Variação observada | Implicação clínica |
Proporção de pacientes com melhora clínica (FFA) | 75% apresentaram resposta positiva após ≈8 semanas de uso | Demonstra janela de avaliação precoce, permitindo definir manutenção ou ajuste posológico em protocolos combinados. Indica início de estabilização inflamatória nas primeiras semanas. |
Eritema perifolicular (FFA) | Redução em 50% dos pacientes respondedores | Redução visual de inflamação perifolicular, facilmente observável por tricoscopia. Representa bom marcador de controle da atividade da doença. |
Prurido (FFA) | Redução em 37,5% dos pacientes respondedores | Alívio sintomático relevante, favorecendo conforto e adesão ao tratamento, com menor necessidade de terapias antipruriginosas. |
Desconforto do couro cabeludo (FFA) | Redução em 12,5% dos pacientes respondedores | Sugere melhora da sensibilidade dolorosa e do componente neuropático associado, importante para o bem-estar geral. |
Eritema global (LPP/FFA misto) | –40% | Indica supressão significativa da atividade inflamatória visível, mesmo em casos de sobreposição fenotípica, geralmente mais refratários. |
Escala de avaliação médica da FFA (LPP/FFA misto) | –58,3% | Representa melhora clinicamente significativa no julgamento médico global, compatível com estabilização da progressão folicular. |
Prurido (LPP/FFA misto) | –31,3% | Diminuição consistente da coceira e irritação cutânea, refletindo menor excitabilidade neuroinflamatória perifolicular. |
Dor (LPP/FFA misto) | –66,7% | Alívio expressivo do desconforto e da sensibilidade ao toque, fator determinante para adesão e continuidade terapêutica. |
4) Segurança e Tolerabilidade
A naltrexona em baixa dose (LDN) apresenta excelente perfil de segurança, com efeitos adversos leves e transitórios, como sonhos vívidos e cefaleia, geralmente autolimitados e sem necessidade de suspensão. A baixa taxa de descontinuação (<5%) e a ausência de eventos graves reforçam sua boa tolerabilidade e viabilidade de uso prolongado em protocolos dermatológicos, desde que acompanhada por monitorização clínica regular.
Discussão e Implicações Clínicas -
O estudo evidencia que a naltrexona em baixa dose (LDN) apresenta ação imunomoduladora e neuroreguladora consistente em diferentes formas de alopecia cicatricial, reduzindo a inflamação perifolicular e os sintomas sensoriais associados ao Líquen Planopilaris e à alopecia frontal fibrosante. O bloqueio transitório dos receptores opioides, com consequente inibição do TLR-4 e diminuição da liberação de TNF-α e IFN-γ, promove modulação imunológica sem induzir imunossupressão sistêmica, resultando em melhora clínica gradual e sustentada.
Principais pontos clínicos observados:
Redução média de 25% no índice de atividade inflamatória (LPP-AI), com estabilização clínica progressiva;
Alívio significativo de prurido e dor (reduções de 35% e 66%, respectivamente), melhorando conforto e adesão ao tratamento;
Diminuição de eritema e descamação perifolicular, evidenciando controle da inflamação local e reequilíbrio do microambiente folicular;
Resposta observada em até 75% dos casos de FFA em 8 semanas, com melhora de eritema e desconforto;
Perfil de segurança favorável, com efeitos leves e transitórios e descontinuação inferior a 5%.
Racional farmacológico:
A. Modulação do eixo opioide endógeno: aumento compensatório de β-endorfina, com efeito anti-inflamatório e restaurador da homeostase cutânea;
B. Inibição do TLR-4: bloqueio da ativação microglial e redução de citocinas pró-inflamatórias;
C. Regulação do TNF-α e IFN-γ: atenuação da destruição perifolicular e preservação da unidade pilossebácea.
Implicações para a prática clínica:
✓ O uso adjuvante da LDN representa alternativa racional e bem tolerada em alopecias cicatriciais refratárias;
✓ Permite associação segura com corticosteroides tópicos, antimaláricos e fotobiomodulação;
✓ Recomenda-se introdução gradual e monitorização tricoscópica para avaliar resposta inflamatória;
✓ Aplicável a pacientes com inflamação crônica persistente e intolerância a imunossupressores convencionais.
Limitação do estudo:
Os dados derivam de séries clínicas e estudos abertos, sem grupo controle, limitando a mensuração da magnitude do efeito e a generalização dos resultados. Ensaios controlados e multicêntricos são necessários para confirmar a eficácia e estabelecer diretrizes posológicas padronizadas.
A naltrexona em baixa dose desponta como opção terapêutica promissora para o manejo de alopecias cicatriciais, combinando eficácia imunorreguladora, segurança e boa adesão, consolidando seu potencial como ferramenta adjuvante em dermatologia inflamatória.

Aviso: Não se auto medique! É fundamental procurar um especialista para receber a orientação adequada e encontrar o tratamento ideal para a sua situação. Cuide-se!
*Consulte um especialista para orientações sobre dosagem e uso seguro de produtos e medicamentos manipulados!
Literatura consultada
Bai JQA, Geng RSQ, Gupta S, Donovan J. The efficacy and tolerability of low-dose naltrexone in the treatment of lichen planopilaris and frontal fibrosing alopecia: A systematic review. J Am Acad Dermatol. 2025 Sep 3:S0190-9622(25)02712-4. doi: 10.1016/j.jaad.2025.08.076. Epub ahead of print. PMID: 40912333.
Departamento Técnico Pharmaceutical Consultoria. 2025 Oct.
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