Gel vaginal de estriol em ultra-baixa dose na prevenção de infecções do trato urinário em mulheres pós-menopausadas.
- Pharmactiva
- há 22 horas
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Alterações geniturinárias decorrentes da deficiência estrogênica na pós-menopausa elevam o pH vaginal, reduzem a proteção epitelial e favorecem a recorrência de infecções urinárias, impactando a qualidade de vida e exigindo abordagens preventivas mais eficazes.
O gel vaginal de estriol em ultra-baixa dose constitui alternativa segura e fisiológica para prevenção de ITUs, promovendo restauração do epitélio, reequilíbrio do pH e manutenção da microbiota saudável, com benefícios clínicos comprovados na redução de episódios infecciosos em mulheres pós-menopausadas.
O problema
As infecções do trato urinário (ITU) representam uma das condições infecciosas mais prevalentes em mulheres, especialmente na população pós-menopausada. A incidência elevada e a recorrência frequente de ITUs nessa fase da vida estão fortemente relacionadas às alterações fisiológicas decorrentes da deficiência estrogênica.
Entre os principais fatores predisponentes, destaca-se a síndrome geniturinária da menopausa (SGM), conceito que abrange manifestações urogenitais e sexuais anteriormente denominadas atrofia vaginal, vaginite atrófica ou atrofia urogenital. A SGM inclui sintomas como secura vaginal, dispareunia, prurido, ardor miccional, aumento do pH vaginal e recorrência de ITUs, impactando de modo negativo a qualidade de vida e a saúde global da mulher madura.
O declínio dos níveis de estrogênio, típico do período pós-menopausal, resulta em atrofia epitelial do trato urogenital, redução da produção de glicogênio e diminuição da colonização por lactobacilos. Essas alterações culminam no aumento do pH vaginal e na perda da barreira protetora natural contra uropatógenos, tornando o ambiente propício à proliferação bacteriana e ao desenvolvimento de infecções recorrentes.
Estima-se que mais da metade das mulheres acima de 55 anos apresentem ao menos um episódio de ITU por ano, sendo que cerca de 40% dessas pacientes evoluem com quadros recorrentes, definidos como três ou mais episódios em doze meses ou dois ou mais em seis meses consecutivos.
A abordagem terapêutica da SGM e das ITUs recorrentes na pós-menopausa tradicionalmente incluiu desde medidas comportamentais e intervenções não hormonais até o uso de antibióticos profiláticos.

Entretanto, a utilização indiscriminada de antibióticos em regimes prolongados contribui não só para a emergência de microrganismos multirresistentes, mas também para o desequilíbrio do ecossistema vaginal, favorecendo o surgimento de infecções oportunistas, desconforto local persistente e piora dos sintomas da síndrome geniturinária da menopausa.
Nesse contexto, destaca-se o papel dos estrogênios tópicos, em especial o estriol, cujas propriedades tróficas sobre o epitélio vaginal e ação na restauração da microbiota e do pH fisiológico fundamentam seu uso em protocolos preventivos para ITU.
A adequação de doses ultra-baixas e formulações otimizadas busca garantir eficácia clínica, segurança e adesão, atendendo à demanda crescente por intervenções baseadas em evidências e com perfil de risco minimizado na mulher pós-menopausada.

Tipo de estudo: Ensaio clínico randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, multicêntrico.
Questão de pesquisa:

População-alvo: Mulheres pós-menopausadas (45–80 anos), com amenorreia ≥12 meses (natural ou cirúrgica), diagnóstico de síndrome geniturinária da menopausa (SGM) e histórico de ITU recorrente (≥3 episódios nos últimos 12 meses ou ≥2 nos últimos 6 meses). N = 108 (eficácia), todas com queixa de secura vaginal.

Intervenção investigada: Gel vaginal de estriol 0,005% (50 mcg/1 g), aplicado 1 g/dia por 3 semanas e, posteriormente, 2x/semana até completar 24 semanas. | Comparador: Gel vaginal hidratante com composição idêntica, porém sem estriol (placebo).

Resultados (Outcomes): Primário: número de episódios de ITU ao final de 24 semanas. Secundários: tempo até recorrência, proporção de pacientes sem recorrência, uso de antibióticos, episódios de bacteriúria assintomática, parâmetros de pH vaginal, sintomas urinários, aceitação, tolerabilidade e eventos adversos.
Referência: Maturitas. 2024 Dec;190:108128. doi: 10.1016/j.maturitas.2024.108128.
Resultados:
Redução de Episódios e Incidência de ITU Recorrente:
Desfecho | Estriol 0,005% (n=53) | Controle (n=55) | Diferença/Estatística |
Mulheres sem episódios de ITU | 46 (86,8%) | 35 (63,6%) | Diferença absoluta: +23,2% |
Mulheres com 1 episódio de ITU | 7 (13,2%) | 14 (25,5%) | |
Mulheres com ≥2 episódios de ITU | 0 (0%) | 6 (10,9%) | |
Incidência de ITU (100 mulheres-ano) | 32,34 | 43,76 | IRR=0,74 (IC95%: 0,65–0,85) |
Redução relativa do risco | - | - | -26% (p<0,0001) |
A aplicação do gel vaginal de estriol 0,005% levou a uma redução estatisticamente significativa de 26% na incidência de ITU recorrente em relação ao grupo controle.
86,8% das mulheres do grupo estriol não apresentaram ITU durante as 24 semanas.
Apenas 13,2% tiveram 1 episódio.
Todos apresentaram redução do número de ITUs para menos de 2 episódios no período.
A maioria das mulheres no grupo estriol permaneceu livre de ITU durante o acompanhamento de 24 semanas, mostrando benefício preventivo robusto.
Taxa de incidência de ITU: 32,34/100 mulher-ano vs. 43,76/100 mulher-ano (placebo).
Razão de incidência (IRR): 0,74 (IC 95%: 0,65–0,85), p<0,0001 — redução de 26% na incidência de ITU comparado ao controle.
pH Vaginal:
Redução significativa em todas as visitas de acompanhamento no grupo estriol (queda de pH entre 6,64% e 8,42% em relação ao baseline; p<0,05), não observada no grupo controle.
Uso de antibióticos:
Apenas 3 pacientes do grupo estriol precisaram de antibióticos vs. 7 no grupo controle (sem diferença estatística significativa).
Uso de antibióticos:
Apenas 3 pacientes do grupo estriol precisaram de antibióticos vs. 7 no grupo controle (sem diferença estatística significativa).
Adesão, aceitação e tolerabilidade:
90,9% relataram aceitação excelente/muito boa; 93,3% relataram tolerabilidade excelente/muito boa. Aderência ao tratamento >90% em 74,5%.
Segurança:
Eventos adversos leves e relacionados principalmente à doença de base; incidência menor no grupo estriol do que no controle. Não houve sangramentos vaginais nem alterações relevantes em endométrio.

Resumo Integrado das Implicações Clínicas:
O gel vaginal de estriol 0,005% demonstrou eficácia superior ao placebo na prevenção de ITU recorrente em mulheres pós-menopausadas com SGM.
Reduziu a incidência de episódios infecciosos, favoreceu a manutenção do pH vaginal fisiológico, diminuiu a necessidade de antibióticos e apresentou excelente aceitação clínica.
Trata-se de estratégia de alta relevância prática, segura, fisiológica e amparada por evidência robusta para prescrição magistral individualizada.
O gel vaginal de estriol 0,005% representa uma estratégia baseada em evidências para prevenção de ITU recorrente no contexto da Síndrome Geniturinária da Menopausa, devendo ser considerado em protocolos clínicos, particularmente em mulheres com contraindicação ao uso sistêmico de estrogênios ou em situações de falha das intervenções convencionais.
Discussão e Implicações Clínicas
A terapia tópica com gel vaginal de estriol 0,005% demonstrou redução significativa na incidência de infecções urinárias recorrentes em mulheres pós-menopausadas com síndrome geniturinária da menopausa, validando a estratégia de reposição local para prevenção de ITU nesse perfil de pacientes. Os dados apresentados fortalecem o papel do estriol como alternativa fisiológica e de baixo risco para minimizar a necessidade de antibioticoterapia em um cenário marcado pela crescente resistência bacteriana.
Entre os principais benefícios observados com o uso do estriol, destacam-se:
Redução de 26% na incidência de ITU recorrente em relação ao placebo;
86,8% das pacientes no grupo estriol permaneceram livres de ITU durante o acompanhamento;
Melhora sustentada do pH vaginal, favorecendo ambiente hostil à proliferação bacteriana;
Redução da necessidade de antibioticoterapia empírica (apenas 5,7% necessitaram do recurso);
Alta aceitação e aderência: mais de 90% das pacientes relataram experiência excelente ou muito boa.
O racional biológico do estriol é consistente: a reposição tópica restaura a integridade do epitélio vaginal, promove recolonização por lactobacilos e mantém pH ácido, dificultando a aderência e multiplicação de uropatógenos como Escherichia coli.
Do ponto de vista prático, destacam-se:
Menor exposição a antibióticos e menor pressão seletiva para resistência bacteriana;
Estratégia alinhada à prevenção e à sustentabilidade em saúde feminina;
Segurança comprovada, com baixa taxa de efeitos adversos e sem eventos graves reportados.
As limitações do estudo incluem:
Amostra exclusivamente espanhola e seguimento restrito a 24 semanas;
Ausência de avaliação do impacto em pacientes com múltiplas comorbidades ou uso prévio de outras terapias hormonais.
Em síntese, o gel vaginal de estriol 0,005% configura-se como intervenção eficaz, segura e fisiológica, podendo ser integrado ao manejo de mulheres pós-menopausadas com risco elevado para ITU recorrente, como alternativa racional à profilaxia antibiótica de longo prazo.

Aviso: Não se auto medique! É fundamental procurar um especialista para receber a orientação adequada e encontrar o tratamento ideal para a sua situação. Cuide-se!
*Consulte um especialista para orientações sobre dosagem e uso seguro de produtos e medicamentos manipulados!
Gel com estriol em ultra-baixa dose
Atenção:
Contraindicado em pacientes com história de neoplasia hormônio- dependente, sangramento vaginal sem diagnóstico ou lesões pré-neoplásicas
do trato genital.
Avaliação prévia com exame ginecológico e exclusão de infecção ativa são recomendadas antes do início do protocolo.
Literatura consultada
Muiños Fernández N, Martínez Salamanca JI, Pardo González de Quevedo JI, Diz Morales MP, Palomo Alameda L, Duce Tello S, González Béjar M, Rabanal Carrera A, Rosado Martín J, Noguera Vera L, Doyle Sanchez A, Rodríguez Mariblanca A, García Aguilar E. Efficacy and safety of an ultra-low-dose 0.005 % estriol vaginal gel in the prevention of urinary tract infections in postmenopausal women with genitourinary syndrome of menopause: A randomized double-blind placebo-controlled trial. Maturitas. 2024 Dec;190:108128. doi: 10.1016/j.maturitas.2024.108128. Epub 2024 Sep 28. PMID: 39388913.
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